A EDUCAÇÃO AMBIENTAL E OS TEMAS TRANSVERSAIS

Prof. Msc. Joel Irineu Lohn
e-mail: joel@coracao.net

  Grandes descobertas em Ciência e Tecnologia são anunciadas a cada dia. Em cem anos de história a Ciência desenvolveu-se mais que em todo o resto da história da humanidade. Automóveis, aviões, viagens interplanetárias, transplantes de órgãos, computadores e muitas outras novidades a cada momento. Este é realmente um mundo de grandes e rápidas transformações e nele a Ciência aparece como um dos mais fascinantes diálogos que a humanidade já travou. Mas, com todas essas novidades a humanidade está conquistando uma existência mais digna? Está mais feliz? Diminuiu a miséria no mundo? Melhorou a qualidade do ar? Os rios e oceanos estão mais limpos? Os habitantes das cidades vivem em harmonia entre si e com as plantas e animais?

As modalidades de transformação e de desenvolvimento que a humanidade tem adotado ao longo da história são depredadoras, de cunho fundamentalmente exploradoras e cruéis, na exploração da natureza e na exploração do homem pelo homem. Se pretendermos construir um mundo para as gerações futuras, devemos mudar radicalmente nossas ações. Mas será possível alguém que vive e foi "educado" para este mundo atual, efetivamente, tentar melhorar o mundo para gerações que não chegará a conhecer, que estão muito longe, se não é capaz de ser solidário com as gerações presentes? Será que as crianças que estão aqui pedindo dinheiro e comida nas ruas e não estão na escola não nos preocupa? É muito difícil acreditar que possamos ser solidários com o futuro sem começar a construir esse futuro no presente. Os processos tecnológicos que constroem o progresso presente conduzem a processos de contaminação e poluição, onde os recursos naturais estão se tornando escassos. A utilização de descartáveis, de difícil degradação está se tornando cada vez maior, produzindo quantidades gigantescas e crescentes de lixo.

A questão ambiental está se tornando cada vez mais urgente e importante para toda a humanidade, pois o futuro depende da relação entre a natureza e o tipo de uso que a humanidade faz dos recursos naturais disponíveis. À medida que a humanidade aumenta sua capacidade de intervir na natureza, surgem cada vez mais conflitos. O modelo de sociedade construído com a industrialização crescente e a conseqüente transformação do mundo em um grande centro de produção, distribuição e consumo, está trazendo rapidamente conseqüências indesejáveis e que se agravam com muita rapidez.

“De onde se retirava uma árvore, agora retiram-se centenas. Onde moravam algumas famílias, consumindo água e produzindo poucos detritos, agora moram milhões de famílias, exigindo imensos mananciais e gerando milhares de toneladas de lixo por dia. Sistemas inteiros de vida vegetal e animal são tirados de seu equilíbrio. A riqueza, gerada em um modelo econômico que propicia a concentração da renda, não impede o crescimento da miséria e da fome. Algumas das conseqüências desse modelo, são o esgotamento do solo, a contaminação da água, o envenenamento do ar e a crescente violência e miséria nos centros urbanos." (PCNs vol. 9 pg. 20)

Os problemas ambientais não se restringem apenas à proteção da vida, mas também à qualidade de vida. A injustiça social, que faz com que parte da população brasileira tenha baixa qualidade de vida, está relacionada diretamente ao modelo de desenvolvimento. É urgente a necessidade da mudança de mentalidade, para transformar a consciência das pessoas em direção a construção de um mundo mais justo, digno e ecologicamente equilibrado. Essas mudanças são possíveis através da escola que precisa muito mais cultivar comportamentos do que transmitir informações. Isto é, a escola deve oferecer condições para que o aluno compreenda os fatos naturais e humanos, de modo crítico e que permita cultivar atitudes que possibilitem viver uma relação construtiva consigo mesmo e com o seu meio, colaborando para que a sociedade seja ambientalmente sustentável e socialmente justa.

A principal função do trabalho da escola com o tema Educação Ambiental, de acordo com os Temas Transversais, dos Parâmetros Curriculares Nacionais, é a "...contribuição para a formação de cidadãos plenos, capazes de decidirem e atuarem sobre a realidade de modo ético e comprometido com a vida, com a sociedade local e global". Para que isso ocorra, é muito pouco informar e dar conceitos. É necessário trabalhar com atitudes, com formação de valores, com o ensino e a aprendizagem de habilidades e procedimentos. É um grande desafio. A escola não está só nesta tarefa, os padrões de comportamento da família, as informações e as opiniões veiculadas pelos meios de comunicação de massa exercem especial influência sobre as crianças e por extensão na sociedade como um todo. Infelizmente, de maneira geral, o discurso e a ideologia implícita, nos meios de comunicação muitas vezes são conflitantes com a idéia de um desenvolvimento sustentado, de respeito ao meio ambiente. São propostos e estimulados valores de consumismo, desperdício, violência, egoísmo, desrespeito, preconceitos, irresponsabilidade e outros.

A raça humana já ultrapassou a marca de 5 bilhões de habitantes. É impressionante verificar que há três mil anos a população humana sobre a Terra era de apenas seis milhões de habitantes. Dentro de vinte anos (2020) seremos mais de 8 bilhões. Esse aumento populacional em escala geométrica, juntamente com a péssima distribuição da riqueza e o consumismo extremo dos países desenvolvidos, tem transformado a raça humana em uma ameaça aos demais seres do planeta. Neste quadro, o Brasil está se tornando o centro das atenções internacionais, já conquistou o título de campeão mundial de desmatamentos. São milhares de focos de destruição e devastação ambiental por todo o país. Ainda temos de maneira muito forte a concepção de que “animal é bicho para se matar e floresta é mato para se derrubar".

Apesar de todo esse quadro, aos poucos e muito lentamente a situação começa a se modificar para melhor. Está surgindo uma nova filosofia para o Meio Ambiente. Falar em Educação Ambiental não significa mais só proteger orquídeas, bromélias, árvores e não matar jacarés e borboletas. Hoje é muito forte a idéia de um desenvolvimento sustentado. Busca-se conciliar desenvolvimento, preservação ambiental e melhoria da qualidade de vida do ser humano.

A Educação Ambiental, de maneira formal, não pode ser definida como uma área especializada de conhecimento. Transcende as áreas formais de conhecimento trabalhadas na escola. È necessário todos os profissionais que atuam na escola, construindo o fazer pedagógico, envolva-se na questão ambiental. È o futuro da vida no planeta Terra que está em jogo. Valores, ética, cidadania, amor à vida e ao próximo, pluralidade cultural, racionalização do consumo, higiene e saúde, urbanização, saneamento básico, sustentabilidade, diversidade biológica, ocupação do solo e muitas outras áreas são importantíssimas para a realização de um bom trabalho.

  O planeta Terra é um patrimônio de toda a humanidade e como tal a sua utilização deve estar sujeita a regras e princípios de respeito a vida. Portanto, deve-se considerar acima de tudo a máxima renovabilidade de seus recursos e as condições de sustentabilidade dos diferentes ecossistemas. Portanto, para a escola, trabalhar educação ambiental, significa antes de tudo favorecer ao aluno o reconhecimento de fatores e situações que realmente produzam felicidade e ajudá-lo a desenvolver capacidade crítica em relação ao consumo de produtos, bens e serviços. Também é igualmente importante desenvolver no aluno o senso de responsabilidade e solidariedade em relação a tudo que o cerca, de forma que aprenda a respeitar o ambiente e as pessoas de sua comunidade. A escola é fator decisivo para a aprendizagem de valores e atitudes. A escola é hoje não mais o segundo lar do aluno, mas em um grande número de casos, o primeiro e único lar que ele tem a sua disposição. Desta forma, a escola constitui-se em um dos ambientes mais imediatos do aluno, então a compreensão das questões ambientais, bem como o desenvolvimento de hábitos e atitudes, passam a ocorrer primordialmente a partir do cotidiano escolar.

A questão ambiental vem sendo considerada cada vez mais urgente e importante para o conjunto da sociedade, pois o futuro da humanidade e do planeta Terra depende da relação estabelecida entre a natureza e o homem. A Educação Ambiental como um tema de preocupação mundial aparece pela primeira vez na conferência de Estocolmo, na década de setenta. Em 1977, em Tbilisi, ocorre a primeira conferência de Educação Ambiental. É um marco de referência para todos os trabalhos realizados. O princípio básico é de que o ser humano precisa se apropriar e transformar o mundo natural. Não existe a possibilidade de não transformá-lo. O ser humano só consegue transformar-se no decorrer dos tempos através de sua ação sobre a natureza. O ser humano tem o direito e a necessidade de intervir na natureza. È um princípio cultural. Não haveria cultura humana se o ser humano não tivesse feito intervenções na natureza. Seríamos iguais aos pássaros, árvores ou outro ser vivo qualquer que não modificou sua maneira de ser e de viver através dos tempos. Ao mesmo tempo, porém, é necessário considerar a existência de limites éticos nesse direito de intervenção. Portanto, o conceito de sustentabilidade direciona a ação humana para a viabilização da espécie humana na Terra, com qualidade e harmonia. O grande desafio da educação ambiental é ajudar a criar um homem mais humano. Que possa recuperar e recriar a nós mesmos como seres humanos capazes de acreditarmos uns nos outros, capazes de acreditar que a transformação do mundo ocorre através da intervenção humana. Através de uma transformação que se constrói na medida em que nos construímos como pessoas que respeitam a vida e que buscam novas formas de unir e educar.

 

 

 

Referências bibliográficas:

 

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