O processo educativo e o metodológico

                                                                                  Prof.  Msc. Joel Irineu Lohn
                                                               
 
            A aquisição do saber sistematizado apresenta-se historicamente, vinculado ao desenvolvimento científico, tecnológico e social de cada país. Inglaterra, França , Alemanha e outros com tradição escolar e científica, definiram, de acordo com suas prioridades e necessidades, o que e como se deve ensinar, do ensino fundamental ao nível superior. Já no século XVIII, estes países estabeleceram políticas nacionais para a educação em geral. As políticas e as reformulações nas diretrizes educacionais acompanham as necessidades sociais em cada época. 

            No Brasil, não possuímos tradição escolar e científica. Somente podemos falar de uma política nacional de ensino, a partir do início deste século e de maneira muito frágil e inconsistente.   A verbalização e aulas teóricas dando grande ênfase aos aspectos positivos da ciência e da tecnologia, com base em livros didáticos europeus, era o processo habitual do trabalho docente. Este “saber sistematizado” era restrito e só acessível através da escola, onde o professor era o único detentor do conhecimento. O aluno era encaminhado para a escola com o objetivo de aprender filosofia, teologia,  história e ciência. As escolas eram os olhos do mundo. 

            No Brasil, ainda hoje, existem  “pedagogias” que não fazem o aluno aprender. Essa prática tradicionalista exige um aluno "estático e mudo" para que a aprendizagem ocorra, e deposita na criança, na família ou em seu meio, a culpa quando esta não se realiza. 

Esta organização didático-pedagógica, muitas vezes,  lembra “Comenius”(pedagogo, autor da Didática Magna), com os manuais metodológicos, que até hoje são utilizados pelos professores. Nem mesmo com acontecimentos marcantes na história da humanidade, tais procedimentos didáticos foram questionados.

 Mas, é ingenuidade acreditar que um conjunto de medidas administrativas e leis possam modificar hábitos consolidados através de muitos anos. As universidades ainda formam professores que “se encaixam” perfeitamente nesse modelo de escola consolidado através de muitos anos de “acertos” através de um processo estanque e compartimentalizado.  

            Vivemos um momento de grandes e rápidas transformações sociais. As mudanças ocorrem em todos os segmentos da sociedade. Esse processo de mudança e de reestruturação social é vivenciado também pelas crianças e adolescentes. Sendo assim, a escola não pode ficar estagnada no tempo e ignorando as transformações, a organização escolar que se tem hoje é a de uma estrutura construída para as necessidades de séculos passados.  

            A escola necessita mudar. Mas não da maneira como vêm ocorrendo, restrita aos limites da escola. A prática educativa deve ocorrer em todos os lugares de todas as maneiras e por todas as pessoas. 

O Brasil é um país marcado por grandes desigualdades sociais. Num contexto onde impera o caos social.  Quem não tem a oportunidade de acesso à educação se torna um indivíduo à margem da sociedade. Um país que já possuiu o título de oitava economia do mundo e relega para o último plano, problemas básicos como educação e saúde, é simplesmente não se importar com o tipo de sociedade que está se formando. 

É necessário buscar condições de valorização e  respeito para todos os componentes da  sociedade. Respeitando a individualidade e promovendo meios e condições que favoreçam a    existência com um mínimo de desigualdade. Proporcionando a  todos não só acesso a educação, como também condições de construção de uma escola para as necessidades da população. 

        As dificuldades encontradas na educação formal são deficiências da estrutura social brasileira e também das deficiências de formação dos profissionais envolvidos no processo educativo.  As transformações no ensino só ocorrerão a partir de transformações sociais mais abrangentes.  O primeiro passo a ser dado deve ser o da formação do professor, com bom preparo teórico e prático, aliados a um engajamento político e social para a elevação da qualidade do ensino. Mas, há muito tempo que o professor, devido a uma grande quantidade de motivos, entre eles destacam-se: baixos salários, deficiências de formação profissional e más condições de trabalho,  deixou de ser o centro do universo da aprendizagem.

         Independentemente dos modismos na prática educacional,  verifica-se que a aquisição do saber deve ser construída pelo próprio aluno, mediante a observação e orientação do professor. E nesta relação dialética de troca, a aprendizagem só adquire sentido se o aluno estiver relacionando-se com o conteúdo em estudo, e mais, participando ativamente através de questionamentos, da apresentação de novas idéias e enriquecendo o conteúdo. Durante essa fase de troca de conhecimentos, em que o professor não apenas se faz "ouvido", como também pára e escuta, e se torna quase um aluno de seu aluno, simboliza muito mais do que uma mera troca de conhecimentos. Efetiva o aluno como parte integrante neste processo de aquisição.

 

Hoje, o aluno tem revistas, rádio, televisão, telefone, internet e muitas outras formas de acesso a informações, das mais diversas possíveis. Ao chegar na escola se depara com um professor que orienta-se num manual metodológico com conteúdos delimitados e, por muitas vezes ultrapassados, sem muitos recursos para tornar a aula atraente e  enriquecedora como as atividades que as crianças exercem fora da escola. 

Assim, a sociedade e seu contexto histórico precisam estar inseridos na aprendizagem, tomando o processo educativo mais próximo da realidade do aluno. Reformulando todo esse conjunto pedagógico na relação aluno-professor-conhecimento-sociedade, insere-se também questões de cunho administrativo e metodológico.

 A estrutura física e administrativa da escola também precisa estar em consonância com toda a dinâmica da aprendizagem. Não basta apenas abrir seu espaço para crianças "entrarem", há necessidade da criação de condições reais para que essa aprendizagem possa ocorrer.

            Hoje; quando uma criança não vai à escola, ela também se torna mão de obra desqualificada. Mas, mesmo quando ela tem acesso a educação, a situação não fica muito diferente.

Este processo de transformação, necessita de muitas discussões e estudos dentro e fora da  escola. O ponto de partida para a discussão é a formação do aluno e a sua participação ativa no processo de ensino-aprendizagem, na qual o aluno aprende, opinando, tornando-se crítico e não um mero receptor, memorizando os conteúdos trazidos pelo professor sem ao menos entender os assuntos.  

É o professor que deve tornar a aula prazerosa e estimulante, usando todo o conhecimento, todos os métodos possíveis para possibilitar a aprendizagem do aluno. Com o avanço dos recursos tecnológicos, televisão, vídeo-cassete, computadores e internet, teoricamente a tarefa dos professores foi facilitada quanto ao ensino de seus alunos. Mas, verifica-se uma grande resistência ao uso desses equipamentos, pelos mais diferentes motivos. Independentemente da utilização dos recursos tecnológicos como instrumentos auxiliares no processo pedagógico, toda essência do aprendizado depende do professor, como administrar, estimular e enriquecer as atividades que envolvem  as atividades da “sala de aula”. 

Não só os professores são importantes para educação dos alunos. Os pais e a comunidade onde vive,  são importantes figuras de identificação para o aluno, pois é através deles que ele percebe o mundo, seus códigos, suas normas e leis, seus direitos e deveres. Pouco a pouco, o aluno incorpora conscientemente tudo o que pode e não pode. Os  pais, professores e toda a sociedade por extensão é que formulam e equacionam o modelo a ser praticado.  

A estrutura escolar necessita ser modificada. O aluno ao chegar na sala de aula, provavelmente já teve um contato prévio com o objeto de estudo, através de revistas, televisão,  vídeo-cassete,  internet, jornais ou bibliotecas. O aluno  possui a sua forma de interpretar e compreender o mundo, já construiu a sua explicação de realidade. Não é a escola que apresenta para ele as novidades. É necessário  que a escola seja o elemento que permita ao aluno, organizar, elaborar, aperfeiçoar, criticar e até modificar todo o conhecimento que ele recebeu e recebe a cada instante.

O aluno deve ter acesso a um processo educativo que se construa a partir de cada situação, de cada realidade, de cada nível de desenvolvimento mental. A aprendizagem é o resultado da interação do aluno com o meio (O aluno não aprende sozinho), resolvendo problemas do cotidiano, refletindo sobre o que observa, confrontando soluções e idéias. 

A escola como instituição, exerce um papel muito importante na formação para a vida. Em contato como  meio em que vive e a partir da escola, o aluno constrói a sua interação como o meio físico e social, permitindo-lhe interpretar a realidade que o rodeia e situando-o como parte do ambiente em que vive. Essa relação deve permitir a sua inserção no mundo do trabalho e torná-lo capaz de intervir no processo sócio-cultural do qual faz parte.

 O eixo norteador desta reorganização metodológica é a pesquisa, por interesse, discussão e construção crítica pelo conjunto das “forças” que atuam na escola e sobre a escola. Não basta importar um conceito ou teoria da moda e introduzi-lo como a grande solução para os problemas presentes. É necessário construir-se a educação em termos de processo dinâmico de formação educativa do ser humano. O papel do professor é muito importante e  tem que ficar bem definido, para possibilitar que o processo de apropriação do conhecimento seja bem sucedido. O  professor deve ter uma participação bastante ativa nesse processo de acompanhamento do aluno, é importante dizer que o professor deverá ampliar os seus conhecimentos, dominar os conteúdos inclusive os clássicos, ser um ser humano do seu tempo que constrói o futuro e não ficar preso à técnicas e manuais, que também foram instrumentos em sua formação. É um novo tempo, com rápidas e grandes mudanças.

 Para fazer-se com que os  alunos não passem a constar de meras estatísticas dentro deste contexto social tão desigual e injusto. Para que eles não se tornem apenas cidadãos com seus direitos frágeis, distantes de sua realidade, é imprescindível o desenvolvimento de suas potencialidades, para que sejam capazes de questionar, refletir e buscar soluções para problemas reais.

            Cada indivíduo é importante como pessoa humana e como membro participante da comunidade onde vive.

 Não busca-se uma receita metodológica. Cada escola tem a sua realidade. As necessidades e aspirações de cada comunidade escolar são distintas. Portanto, é necessário que o “fazer pedagógico”   seja construído em cada escola, com a participação de todos os envolvidos no processo. Mas, é necessário considerar que a função principal da escola é ser co-autora do processo de construção de cidadãos capazes de intervirem e agirem sobre a realidade vivenciada, de acordo com suas esperanças e necessidades.

 

BIBLIOGRAFIA:

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 DIMENSTEIN, Gilberto. O cidadão de papel. 17ªed. Ática: São Paulo.1999.

 FERREIRO, E. Os filhos do analfabetismo. Artes médicas: Porto Alegre. 1992.

 LIBÂNEO, José Carlos. Pedagogia e Pedagogos para quê? Cortez: São Paulo. 1998.

 LOHN, J.I. e Zunino,A.V. Ciência, Tecnologia e Sociedade: na direção de uma escola de integração a partir do ensino de ciências. CED/CME/UFSC, Florianópolis. 1990.