Prof. Msc. Joel Irineu Lohn

 

01 - CIÊNCIA

         Etimologicamente, ciência significa conhecimento. Porém, muitos tipos de  conhecimentos  não pertencem à ciência, como o conhecimento vulgar e outros.  Uma definição de forma clara e aceita por todos sobre o que realmente é ciência, está longe de ser conseguida, é uma questão bastante controvertida. Vários autores chegam a considerar este fato,  sem solução definitiva. Mas, é possível, mediante reflexão, determinar-se com razoável grau de precisão as diferenças entre conhecimento científico e outras formas de conhecimento.

         Pode-se considerar a ciência como uma forma de conhecimento que tem por objetivo formular, mediante linguagem rigorosa e apropriada  - se possível, com auxílio da linguagem matemática -, leis que regem os fenômenos. Embora sendo as mais variadas, essas leis apresentam vários pontos em comum: são capazes de descrever séries de fenômenos; são comprováveis por meio da observação e da experimentação; são capazes de prever - pelo menos de forma probabilística – acontecimentos futuros.

        A ciência pode ser caracterizada como uma forma de conhecimento objetivo, racional, sistemático, geral, verificável e falível. O conhecimento científico é objetivo porque descreve a realidade independentemente dos caprichos do pesquisador. É racional porque se vale, sobretudo da razão, e não de sensação ou impressões, para chegar  a seus resultados. É sistemático porque se preocupa em  construir  sistemas de idéias organizadas racionalmente e em incluir  os conhecimentos parciais em totalidades cada vez mais amplas. É geral porque seu interesse se dirige fundamentalmente à elaboração de leis  ou normas gerais, que explicam todos os fenômenos de certo tipo. É verificável porque possibilita demonstrar a  veracidade das informações. É falível porque ao contrário de outras formas de conhecimentos elaborados pelo homem, reconhece a sua própria capacidade de errar.

 

02 -  CONHECIMENTO

 

 A  – A natureza do conhecimento:

 O ser humano toma conhecimento do mundo de diversas maneiras, através dos órgãos dos sentidos que transmitem ao cérebro a existência dos objetos.  A percepção de um objeto  ocorre a partir das sensações causadas pelas qualidades dos objetos. É o experimentar, o sentir, que caracteriza a sensação e a difere de outros fenômenos materiais, sendo imediata e exclusivamente um fato de consciência.

 O homem possui a capacidade de pensar, identificar e reconhecer. Para sua sobrevivência o homem necessita conhecer e pensar. O conhecimento é necessário para o desenvolvimento. Através do conhecimento o homem domina a natureza.

 Sabemos que existimos porque pensamos. Saberá o universo que ele existe? Nós sabemos que ele existe e podemos estudá-lo. Se nada soubéssemos a respeito do universo, seria o mesmo que ele não existisse.

 Conhecer e pensar, colocam o universo ao nosso alcance e  lhe dão o sentido, finalidade e razão de ser. O homem vê e conhece, conhece o que vê e pensa no que viu e no que não viu, conhece e pensa, pensa e interpreta. Os outros animais só conhecem as coisas por via sensorial; o homem, além  disso, investiga-lhes as causas, elaboram o material de seus conhecimentos.

 A história humana é a história das lutas pelo conhecimento da natureza, para dominá-la, para interpretá-la; e cada geração foi recebendo um mundo interpretado pelas gerações passadas. As gerações dos místicos intentaram a interpretação mística do universo a partir de intuições, de iluminações proféticas. As gerações dos filósofos procuraram ultrapassar a experiência vulgar. Finalmente, as  gerações dos cientistas desdobraram o universo em milhares de segmentos, não para dizer como é o “ser”, mas para saber “como” cada coisa é.

 A atual geração encontra, pois diante de seus olhos, um mundo já pensado, já interpretado, pronto para o consumo: história interpretada, sociedade organizada, normas estabelecidas de moral, leis de direito codificadas, religiões estruturadas, classificação e virtudes  dos alimentos  especificadas para cada  idade, regulamentos para dirigir carro, programas escolares, tudo pronto. Mas a geração de hoje não pode resignar-se a um conhecer o mundo de segunda mão; não pode julgar-se dispensada de pensar naquilo que já pensaram por ela e definiram sem consultá-la. Se as gerações que nos precederam tivessem pensado assim, estaríamos hoje sob o manto da barbárie ou atados a grilhões medievais.

 Conhece verdadeiramente quem atinge  as razões, as causas das coisas e não as coisas simplesmente. Conhece sem pensar,  a modo das crianças, dos débeis e dos irracionais, quem se contenta em ver e aceitar tudo sem questionar, sem refletir, sem alcançar os fundamentos, sem buscar razões, sem justificar sua posição. Aqueles para os quais os pais fossem em casa o critério de verdade e motivo de certeza; na escola, os professores; nos templos, seus ministros; nos jornais, as letras. Com certeza, conheceriam muitas coisas; entretanto, não pensariam. O homem precisa pensar. É direito e obrigação sua. No momento em que o homem procura ultrapassar o simples conhecer pelo empenho em pensar, não nasce a ciência, é verdade; mas já vai despontando o elemento básico da atitude científica que é, antes de mais nada, crítica e objetiva.

No processo de busca do conhecimento, encontram-se frente a frente o sujeito (a consciência que busca o conhecimento) e o objeto (elemento da busca do conhecimento). O conhecimento apresenta-se como o resultado da relação entre dois elementos (sujeito e objeto). A função do sujeito consiste em aprender o objeto, a do objeto em ser aprendido pelo sujeito.

 A partir do sujeito, esta apreensão apresenta-se como uma saída do sujeito para fora de sua própria esfera, uma invasão da esfera do objeto e uma leitura ou reconhecimento das propriedades deste. O objeto permanece, sem ser modificado. Mas, no sujeito alguma coisa se altera, como resultado do conhecimento do sujeito sobre o objeto. No sujeito, surge algo novo, que contém as propriedades do objeto, surge uma “imagem” do objeto.

 A partir do objeto, o conhecimento apresenta-se como uma transferência das propriedades do objeto para o sujeito. As propriedades do objeto não são transferidas ao sujeito. Ocorre sim, a transferência da imagem do objeto para o sujeito. Esta imagem torna-se objetiva, na medida que leva em si os traços  do objeto. É distinta do objeto, encontra-se de certo modo entre o sujeito e o objeto. Constitui o instrumento pelo qual a consciência do sujeito aprende seu objeto.

  

             B - Os tipos de conhecimento

 Como vimos anteriormente, existem duas espécies de conhecimento: conhecimento sensorial, comum aos homens e aos outros animais, e o conhecimento intelectual que é característico dos seres humanos. Para que possamos fazer a caracterização entre os dois, vamos dividi-los em conhecimento vulgar (senso comum) e conhecimento científico.

 

            Conhecimento vulgar:

O conhecimento vulgar ou conhecimento empírico é o modo comum, espontâneo, pré-crítico de conhecer. É o conhecimento da maioria da população, conhecimento que atinge os fatos sem lhes inquirir as causas.  Durante a existência, o ser humano vai acumulando  conhecimentos de coisas que viu pessoalmente, coisas que ouviu de terceiros, vai absorvendo (interiorizando) as tradições da coletividade. São experiências causais, sem método, assistemáticas, fragmentárias e ingênuas, que atingem o fato nas suas aparências gerais, sem análise, sem crítica e sem demonstração. Acolhem informações e assimilam tradições sem análise e sem a busca dos fundamentos desses conhecimentos.

 Todo ser humano comum bem informado é lógico nos seus arrazoados. Conhece muito sobre o mundo em que vive. Como tal fornece aos outros  “receitas infalíveis, conselhos e informações preciosas”. As mulheres que já tiveram filhos dão consultas gratuitas para as principiantes que lutam contra os problemas do primeiro filho. Quando alguém está com  dor-de-cabeça, sempre aparece um “especialista” que conhece um comprimido eficaz, que alivia a dor rapidamente. Mas, ignora a composição do medicamento, a natureza da dor e a forma de atuação do medicamento. Este tipo de conhecimento, superficial, por informação ou experiência casual, recebe o nome de conhecimento vulgar ou empírico.

 O especialista em lógica conhece lógica cientificamente; o advogado conhece leis cientificamente; o pedagogo conhece educação cientificamente. O homem comum pode conhecer tudo isso de outro modo, não cientificamente, mas de maneira vulgar e empírica. É importante observar que, para qualquer  ser humano, a porção maior de seus conhecimentos pertence à classe do conhecimento vulgar (senso comum).

 Sobre o conhecimento vulgar podemos dizer ainda que é comum e possível a todo ser humano, de qualquer nível cultural.  Não questiona, não analisa, não exige demonstração, é ocasional e assistemático. Vale dizer que o conhecimento vulgar atinge as coisas, enquanto o conhecimento científico estuda sua constituição íntima e suas causas.

  

           Conhecimento científico:

 Diferentemente do conhecimento vulgar, o conhecimento científico não atinge simplesmente os fenômenos na sua manifestação global, mas os atinge em suas causas, na sua constituição íntima, caracterizando-se, desta forma, pela capacidade de analisar, de explicar, de desdobrar, de justificar, de induzir ou aplicar leis, de predizer com segurança eventos futuros.

 A ciência é fruto da tendência humana para procurar explicações  válidas, para questionar e exigir respostas  e justificações convincentes. Este dinamismo questionador peculiar ao espírito humano já se manifesta na primeira infância, quando criança multiplica suas indagações sobre as coisas, chegando mesmo a embaraçar os adultos.  Felizmente ou infelizmente, as crianças acabam aceitando respostas incompletas e imperfeitas.

O Conhecimento Científico, é expressão que lembra laboratório, instrumental de pesquisa, trabalho programado, metódico, sistemático e não faz associações com inspiração mística ou artística, religiosa ou poética. A expressão conhecimento científico evidencia o caráter de autoridade, de respeitabilidade, que falta ao conhecimento vulgar.  É privilégio  de especialistas das diversas áreas das ciências. É um processo sistemático, metódico, orgânico, crítico, rigoroso e objetivo. Nasce da dúvida e se consolida na certeza das leis demonstradas, válidas para todos os casos de mesma espécie que venham a ocorrer nas mesmas condições.  É obtido a partir de um conjunto de processos determinados pelo homem, como tal, é passível de interpretações incompletas ou não consistentes por muito tempo. A única certeza, é a de que, todo conhecimento científico é precário e pode ser reformulado e reinterpretado a qualquer tempo.

 

 

03 - MÉTODO CIENTÍFICO

 O método constitui característica  tão importante do conhecimento científico que, muitas vezes, identifica-se ciência com seu método. A palavra método é de origem grega e significa o conjunto de etapas e processos a serem vencidos ordenadamente na investigação.

 Não foi somente com o método que o fenômeno de reflexão e sistematização ocorreu, o ser humano primeiro viveu a vida e suas experiências, e só depois estudou a vida. Primeiro o ser humano raciocinou com lógica espontânea, e só depois definiu as leis do raciocínio; assim, também, o homem primeiro agiu metodicamente, e só depois  estruturou os passos e exigências do método científico. Desta forma, podemos dizer que primeiro o homem procurou agir cientificamente, e só depois surgiu o método ou o traçado fundamental do caminho a percorrer na pesquisa científica.

 O método científico confere segurança e é fator de  economia na pesquisa, no estudo, na aprendizagem. O método não pode ser ignorado em seus delineamentos gerais, sob pena de insucesso. Entretanto, sabemos que o método por si, não garante o sucesso de uma pesquisa, é um extraordinário instrumento de trabalho que ajuda, mas não substitui o talento do pesquisador. Mas, sobre a importância do método, costuma-se dizer que "um espírito medíocre, mas guiado por um bom método, faz, muitas vezes mais progressos nas ciências que outro mais brilhante que caminha ao acaso”.

 Método é um conjunto de normas determinadas,  que devem ser satisfeitas, caso se deseje que a pesquisa seja adequadamente conduzida e capaz de levar a conclusões merecedoras da adesão  pela comunidade científica.

 Em sentido amplo, pode-se dizer que todas as atividades podem ser executadas de alguma forma mais segura, mais econômica, mais perfeita. O roteiro desta ação mais perfeita é seu método peculiar, ou melhor, sua técnica. Assim, existem métodos de piano, métodos para ler, para escrever, para resumir, para estudar e aprender de fato, e assim por diante. A palavra método significa o traçado das etapas fundamentais da pesquisa. Dentro do método, existem as técnicas que são os diversos procedimentos ou os recursos peculiares a cada objeto de pesquisa, dentro das diversas etapas do método. A técnica é a instrumentação específica da ação e varia muito e se altera e progride de acordo com o progresso tecnológico e científico.

  

         Os tipos de métodos:

 Além da imensa variedade de técnicas, de processos e de métodos peculiares a cada campo da ciência, arte ou atividade, o método geral  divide-se em duas espécies caracterizadas pela direção ascendente ou descendente do pensamento; a direção descendente, própria  do método racional, é denominada dedução, e a direção ascendente, própria do método experimental, é denominada indução.

  

          - Método racional (dedutivo):

 O pensamento é dedutivo quando, a partir de enunciados mais gerais dispostos ordenadamente como premissas de um raciocínio, chega a uma conclusão particular ou menos geral.

Exemplo:

Todo homem é mortal. (premissa geral)

Pedro é homem.

Pedro é mortal. (conclusão particular)

 Este método é utilizado nas especulações filosóficas e nas demonstrações de propriedades matemáticas a partir de axiomas e de definições ideais. A função básica é explicitar ao longo da demonstração aquilo que implicitamente já se encontra presente no antecedente. As áreas que não utilizam experimentação como caminho de pesquisa, utilizam-se mais da dedução.

 

            - Método indutivo:

           A indução é um processo de raciocínio inverso ao processo dedutivo. Enquanto a dedução parte de enunciados mais gerais  para chegar a conclusão particular ou menos geral, a indução caminha do registro de fatos singulares ou menos gerais  para chegar a conclusão desdobrada ou ampliada em enunciado mais geral.

Exemplo:

Este fio de cobre conduz energia.

Este segundo e este terceiro pedaços de fio de cobre conduzem energia.

Todo fio de cobre conduz energia (conclusão)

            Cobre conduz energia

Ouro conduz energia

Ferro conduz energia

Cobre, Ferro e ouro são metais.

Todo metal conduz energia (Conclusão, enunciado mais geral).

 É muito comum o uso do raciocínio indutivo; a partir da observação de alguns fatos, a mente humana tende a tirar conclusões gerais; mas o problema da indução é muito complexo. A partir de alguns casos particulares apresenta uma conclusão generalizada, válida para todos os casos. Será lícito fazer generalizações a partir de alguns casos ou de um único caso? A indução pode ser vulgar ou científica. Na indução vulgar, as generalizações são superficiais, não há critérios científicos para o controle dos casos, como neste exemplo:

Conheço  estudantes universitários que não levam a sério seus estudos.

Portanto, os estudantes universitários não levam a sério seus estudos.

 A indução científica parte do fenômeno para chegar a lei geral. Observa, experimenta, descobre a relação causal entre os fenômenos e generaliza esta relação em lei.

Parte do particular à lei geral. Para tanto, o pesquisador, observa metodologicamente os seguintes passos: observação, hipótese, experimentação e indução.

a)   Observação: É  o ponto de partida de todo o trabalho e que vai permitir a conclusão final (relação causa-efeito), é importante que se tenha determinadas condições necessárias para uma boa observação. O sucesso da pesquisa vai depender de determinadas qualidades que permitam captar o objeto na sua totalidade.

b)   Hipótese: Tem como ponto de partida uma suposição, ou seja, uma razão provisória. É a explicação provisória das causas de um fenômeno. A sua função principal é orientar o pesquisador na direção da causa possível, sugerindo experiências e caminhos para a comprovação ou refutação do fato.

c)   Experimentação: é o estudo de um fenômeno provocado artificialmente no sentido de verificar uma hipótese. Em algumas áreas do conhecimento, a experimentação nem sempre é possível, como na astronomia e na meteorologia. Sob o ponto de vista legal e ético, também existem limitações à experimentação em determinadas áreas, cujo objeto é o ser humano.

d)   Indução: é um processo que consiste em generalizar uma relação da causalidade entre dois fenômenos, ainda que se tenha verificado apenas um número de vezes relativamente restrito, e em concluir, da relação causal, a lei.

  

Bibliografia:

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ANDRADE, M. M. de .  INTRODUÇÃO À METODOLOGIA DO TRABALHO CIENTÍFICO. São

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 ARANHA, M. L. de A .  História da Educação. São Paulo: Moderna, 1996.

 CASTRO, Claudio de Moura. Estrutura e apresentação de publicações científicas. São  Paulo: McGraw-Hill do Brasil, 1976.

 CERVO, Amado Luiz & BERVIAN, Pedro Alcino. Metodologia científica. 4. Ed. São Paulo:

MAKRON BOOKS, 1996.

 GILL, Antônio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 4.ed. São Paulo: Atlas, 1994.

 LAKATOS, Eva Maria & MARCONI, Marina de Andrade. Metodologia do trabalho  científico: procedimentos básicos, pesquisa bibliográfica, projeto e relatório, publicações e trabalhos científicos. 4.ed. São Paulo: Atlas, 1992.

 RUIZ, J. A. Metodologia Científica: guia para eficiência nos estudos. São Paulo: Atlas, 1985.